Fronteiras do pensamento

Ganhei um convite para a conferência do Fronteiras do Pensamento em São Paulo no dia 4 de julho com a palestrante Catherine Millet, que expôs seu posicionamento com relação ao movimento “#metoo”. O título do encontro é sugestivo: “as ideias antiquadas do #metoo”.

O termo (traduzindo para o português , “eu também”) foi cunhado em 1996, pela ativista Tarana Burke, com a ideia de criar empatia entre as vítimas de assédio, mas foi em 2017, após um tweet da atriz Alyssa Milano denunciando o produtor cinematográfico Harvey Weinstein por assédio sexual utilizando o termo em uma hashtag, que ela se espalhou pelo mundo como um movimento de combate à violência sexual contra a mulher.

Por meio dela, mulheres encorajaram-se e denunciaram abusos ou outras formas de sexismo sofridas; o feminismo ganhou popularidade e a justiça europeia adotou uma postura mais rígida em relação aos denunciados.

Catherine é escritora e crítica de arte reconhecida na Europa e fundadora de uma das revistas de arte mais importantes da França, a Art Press, além de autora do livro “A vida sexual de Catherine M.”, que vendeu milhões de cópias ao redor do mundo. Na obra, ela relata experiência sexuais diversificadas que viveu em seu casamento aberto com o escritor francês Jacques Henric e suas reflexões sobre corpo físico, prazer e sentimentos. Em janeiro deste ano, foi coautora de um manifesto contra a campanha #metoo e  no evento argumentou de forma coerente sobre o porquê desta atitude.

Millet questiona a generalização quando se fala em violência de gênero. A escritora discorda que a violência verbal, o assédio ou a violência sexual atinjam a dignidade da vítima com o mesmo grau de intensidade. Para reforçar tal pensamento, inclusive, foi citada uma afirmação da filósofa Elisabeth Badinter, autora de diversas obras sobre feminismo e o papel da mulher na sociedade. Badinter entende que as palavras são uma arma à disposição de ambos os sexos, com o benefício de evitar a agressão física em si.

Foi mencionada também a existência de uma “ditadura do ressentimento”. A percepção subjetiva do mundo, que cada indivíduo carrega, é difícil de ser mensurada no plano legal do estado democrático de Direito. Este é um ponto que influencia nas investigações e na gradação da punição.

A superexposição midiática do agressor na imprensa e nas redes sociais no curso do processo possui um objetivo subliminar de punir o acusado, tendo em vista a deficiência ou descrença no sistema de justiça. Mas esta atitude intimida e aumenta a censura ou a auto-censura, o que Millet julga muito grave se o objetivo é a defesa da liberdade, da igualdade e da democracia. Além disso, tira o foco de outros conflitos importantes que ocorrem simultaneamente.

Para minimizar esse tipo de julgamento apressado, ela sugere nosso trabalho intelectual no sentido de discernir a violência sexual propriamente dita de um comportamento inadequado.

Um ponto de atenção levantado foi o risco de, diante deste panorama que vivemos, que as subjetividades de apenas uma parte dos indivíduos passe a ditar o comportamento de todos os demais.  Nas palavras dela, “Não estamos mais numa situação de estado de direito, que garante as boas relações em uma sociedade impondo a mesma lei a todos os indivíduos, mas sim em uma situação oposta – vivemos em uma sociedade em que o ressentimento de alguns regula o comportamento de todos.”

Sobre a sua oposição ao movimento #metoo, Catherine explicou que se opôs pelo fato das atrizes que realizaram as denúncias terem recursos subjetivos para dizer não ao assédio; que a hierarquia e o grau cultural que permeiam a relação entre uma atriz e um produtor é diferente de outros tipos de assédios sofridos pelas mulheres em seus ambientes de trabalho.

Ela também não concorda com o caráter totalitário que o movimento inspira. As mulheres não são todas iguais e não devem ser tratadas como tal entre si.

Antes do encerramento ouve um pequeno debate entre Millet e a professora Isabelle Anchieta e espaço para perguntas do público.

Para mim foi muito enriquecedor ouvir a exposição de um ponto de vista tão diferente do meu com relação ao feminismo, por uma mulher. A fala de Millet foi rica em referências etimológicas, históricas e bibliográficas. Valeu a abertura para esse posicionamento e a oportunidade de reflexão sobre, muitas vezes, apenas por ver a palavra “feminismo” embarcarmos em movimentos e repetição de discursos que podem possuir uma origem ou uma carga história oposta do que queremos de fato dizer.

Isso não pode ser ignorado. É necessária a adequação dos movimentos feministas para atender às demandas de todas as mulheres observando suas especificidades – mantendo o diálogo e o respeito entre si. Não há causa maior ou menor. Existe a luta das mulheres por mais igualdade, que ocorre em um cenário complexo e com muitas camadas.

Se você leu aqui ideias com as quais você concorda ou discorda, te convido a se aprofundar e a refletir, de coração aberto. Que nosso intelecto seja guiado também pela consciência. Ah, compartilha comigo sua opinião sobre o #metoo e sobre os argumentos da Catherine! Assim a gente aprende junto, umas com as outras.

De coração e útero,

Niki

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